O rei de Lampedusa

Sydney Cohen era um órfão londrino de Stoke Newington, que exercia o ofício de cortador de alfaiate. De origem judaica, alistara-se voluntariamente na lendária Royal Air Force (RAF), em 1941, após ter o apartamento em que vivia danificado por bombas alemãs, durante a blitz de Göring sobre a capital da Inglaterra, no ano anterior.

      Destacado para o serviço na base de Hal Far, na ilha de Malta, no Mediterrâneo, recebera a missão de localizar a tripulação de um avião alemão que caíra no mar, em 12 de junho de 1943.

      O jovem Sargento-Piloto da RAF, de 22 anos, decolou a bordo de seu biplano Swordfish, acompanhado da sua tripulação, formada pelo Sargento Leslie Wright, como artilheiro e o também Sargento Peter Cates, operador de rádio.

Biplano Swordfish

      Cohen e sua equipe lograram localizar o piloto alemão, para o qual lançaram pacotes de sobrevivência, tomando, a seguir, o rumo de Malta.

Pouso em Lampedusa

      Entretanto, problemas de navegação, causados por uma bússola defeituosa, os afastaram de seu destino e, já com pouco combustível, foram obrigados a realizar um pouso de emergência na pequena ilha de Lampedusa, localizada a 160 quilômetros a sudoeste de Malta e a 200 quilômetros ao sul da Sicília.

Ilha de Lampedusa, no Mar Mediterrâneo

      Lampedusa possuía uma guarnição de cerca de 4.300 italianos, e já vinha sofrendo incessante bombardeamento aéreo e naval pelos aliados, nos preparativos para a invasão da Sicília, a ser iniciado no dia 9 de julho de 1943.

      Ao pousar no aeródromo da ilha, Cohen notou carcaças de aviões incendiados por toda parte e crateras no leito da pista, provocados pelos constantes ataques da aviação anglo-americana.

      Ao ver a aproximação de vários militares inimigos, Cohen e sua tripulação prepararam-se para a rendição. No entanto, para sua surpresa, os italianos que assomaram à sua aeronave, portando panos brancos, manifestaram a intenção de renderem-se aos ingleses, praticamente implorando por sua aceitação.

     Diante do impasse, Cohen tomou a iniciativa e exigiu que fossem levados ao “number one man”, o comandante da guarnição. Já no gabinete do oficial naval que comandava a tropa italiana, enquanto parlamentavam, foram surpreendidos por mais um reide de aviões P-38 Lightning norte-americanos contra a ilha, que dispersou a reunião.

Rendição e o título de “Rei de Lampedusa”

      Cohen, entendendo a situação em que se encontravam os italianos, que eram alvos fáceis e imobilizados, ante a esmagadora força aérea e marinha dos aliados e sem possibilidade de serem reforçados, exigiu que lhe fosse entregue um documento, assinado pelo comandante italiano.

      De posse do documento, em meio ao caos de outro ataque ao aeródromo, Cohen e sua equipe reabasteceram o avião e conseguiram decolar em direção a Túnis, onde pousaram em uma base aérea norte-americana. Ao relatar a sua história e entregar a rendição escrita ao comando, foi imediatamente chamado de “Rei de Lampedusa”.

      Em 20 de junho de 1943, a RAF começava a operar a partir de Lampedusa.

Sucesso na propaganda de guerra

      A inusitada aventura do Sargento Sydney Cohen rapidamente chegou às páginas dos jornais londrinos, como o The News Chronicle, que o chamou “The King of Lampedusa”; e do The Sunday Pictorial, que colocou na manchete: “Lampedusa Gives in to Sgt Cohen!”.

      A repercussão na imprensa britânica foi capitalizada pela propaganda aliada, que necessitava de histórias que pudessem alavancar o moral da causa contra o nazifascismo. Cohen tornou-se um herói, principalmente entre a comunidade judaica.

      O autor de teatro, S. J. Charendorf, escreveu uma peça em ídiche, intitulada “O Rei de Lampedusa”, que foi exibida em teatros do East End de Londres por mais de 200 dias consecutivos, transformando-se em um sucesso que levou a BBC a transmiti-la, em inglês, alcançando vários países, inclusive a Alemanha, onde causou tamanha irritação, ao ponto de um dos mandatários nazistas ameaçar um reide especial da Luftwaffe sobre o teatro que a exibia, na capital inglesa.

      Cohen teve oportunidade de assistir a uma apresentação da peça em Haifa, na Palestina, onde estava estacionado, em 1944.

Triste fim do herói de Lampedusa

      Sydney Cohen não pode desfrutar da fama adquirida por seu notável feito, por muito tempo.

      Quando retornava à Inglaterra, para ser desmobilizado da RAF, em 26 de agosto de 1946, o avião que pilotava desapareceu sobre o Canal da Mancha, próximo a Dover, sem deixar vestígios. Seus restos mortais jamais foram encontrados.

       Seu nome foi lembrado pela RAF, no Alamein Memorial, dedicado aos que desapareceram servindo ao seu país.

Por Marcelo Pimentel

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