Operation Vengeance: a caçada ao Almirante Yamamoto

O ataque traiçoeiro à Base Naval de Pearl Harbor, no arquipélago do Havaí, em 7 de dezembro de 1941, por forças navais do Império do Japão, foi um ato hostil contra os Estados Unidos da América, até então uma nação neutra, que provocou sua entrada na guerra, que assumiria um caráter mundial, pela segunda vez.

O ultraje provocado na sociedade norte-americana foi além da declaração formal de guerra contra o império agressor. Dentre suas consequências, o desejo de vingança contra aquela afronta foi incorporado à alma daquela nação. Seu primeiro ato foi o audacioso reide do Tenente-Coronel James Doolittle, que liderou o ataque de dezesseis aeronaves B-25, que lançaram bombas sobre Tóquio e Nagoya, em 18 de abril de 1942.

Guerra no Pacífico

A luta contra os japoneses prosseguiu. Em fevereiro de 1943, após seis meses de encarniçados combates, os americanos obtiveram sua primeira grande vitória em Guadalcanal, no arquipélago de Salomão, na Oceania.

Em 14 de abril de 1943, a Inteligência Naval norte-americana interceptou e decodificou mensagens japonesas, nas quais ordens de alerta foram emitidas para unidades daquele país, sobre uma viagem de inspeção do Almirante Isoroku Yamamoto, Comandante da Marinha Imperial Japonesa, a guarnições nas Ilhas Salomão e Nova Guiné, com o fito de elevar o moral das tropas japonesas, após a derrota em Guadalcanal. Foram obtidos detalhes dos itinerários, horários e locais a serem visitados por Yamamoto e sua comitiva, incluindo-se o número e tipos de aeronaves de transporte e de escolta a serem utilizadas.

Almirante Isoroku Yamamoto – Comandante da Marinha Imperial Japonesa

A rota de Yamamoto

Tal interceptação das comunicações também revelou que, em 18 de abril, Yamamoto voaria de Rabaul, na Ilha da Nova Bretanha, em Nova Guiné, para o aeródromo de Balalae, em uma ilha próxima  a Bougainville, nas Ilhas Salomão.

Ilha de Bougainville

Yamamoto e comitiva voariam em dois bombardeiros médios Mitsubishi G4M Bettys, escoltados por seis caças navais Mitsubishi Zero, que partiriam de Rabaul às 06:00h, com chegada prevista em Balalae para as 08:00h.

Em 17 de abril, a missão de interceptação e eliminação do Almirante Yamamoto foi autorizada pelo Almirante Chester W. Nimitz, Comandante em Chefe do Pacífico para as áreas oceânicas. Não há registros se o Presidente dos EUA, Franklin D. Roosevelt, tenha tomado conhecimento prévio da operação.

As justificativas para a eliminação de Yamamoto, então apresentadas, foram as de abalar o moral das forças japonesas e privar o inimigo de um comandante altamente capaz, que não seria substituído com facilidade.

Pairavam, no entanto, temores que o desencadear da operação pudesse levar os japoneses a concluir que os EUA haviam quebrado seus códigos secretos, empregados em suas comunicações. Resolveu-se, então, que a fonte dessas informações seria protegida por meio de estória-cobertura, que a creditava a informações fornecidas por Coastwatchers australianos, que se tratava de elementos de Inteligência estacionados em ilhas remotas do Pacífico, com a missão de observar e reportar os movimentos das forças japonesas. Essas informações dariam conta do embarque em uma aeronave, em Rabaul, de um oficial do mais alto posto da Marinha Imperial.

  Uma vez tomada a decisão de derrubar a aeronave que transportaria o Comandante da Marinha Imperial Japonesa, Isoroku Yamamoto, a missão foi atribuída ao 339° Esquadrão de Caça, do 347° Grupo de Caça, da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos, estacionado em Kukum Field, em Guadalcanal.

Os executores da vingança

A escolha deveu-se, primordialmente, ao equipamento de dotação do esquadrão, o P-38 Lightning. Essa aeronave, com a instalação de dois tanques de 620 litros de combustível cada um, adicionados sob as asas e descartáveis quando necessário, teria autonomia de voo suficiente para cumprir a missão, que envolvia percorrer grandes distâncias. O P-38 possuía um canhão de 20mm e duas metralhadoras de calibre .50.

P-38 Lightning

A liderança da missão coube ao próprio Comandante do 339° Esquadrão de Caça, Major John Mitchell, que organizou seus dezoito P-38 em quatro esquadrilhas.

A esquadrilha “Killer”, cuja tarefa era destruir as aeronaves de transporte japonesas, era composta por quatro aviões, comandados pelo Capitão Thomas Lanphier Jr.

Às outras três esquadrilhas, cada uma com quatro P-38, caberiam a escolta da esquadrilha Killer e a neutralização dos Zeros japoneses. Dois outros P-38 adicionais decolariam como aeronaves reservas.

Apesar de a ilha de Bougainville estar a 640 Km de Guadalcanal, razões de segurança e de manutenção do sigilo da operação determinaram o estabelecimento de uma rota de interceptação que evitasse radares e a observação de tropas japonesas, que poderiam emitir o alerta da aproximação da força atacante. Assim, um percurso de 1.000 milhas (1.600 Km) foi planejado, tendo sido calculado o horário das 09:35h para a interceptação do inimigo, exatamente quando estariam a 10 minutos de pousar em Balalae.

Um feito militar notável

No dia 18 de abril, às 07:25h, os 18 P-38 decolaram de Kukum Field, em Guadalcanal. Entretanto, duas aeronaves da Esquadrilha Killer apresentaram problemas e retornaram à base. Um pneu estourado e problemas de alimentação do motor foram as causas das panes. As duas aeronaves reservas recompletaram o efetivo previsto para a esquadrilha.

A força atacante, após percorrer a longa distância em voo ao nível das ondas, chegou ao ponto previsto para a interceptação às 09:34h, um minuto antes do calculado. O Tenente Doug Canning, da cobertura aérea, emitiu o alerta, ao ver um Betty em rota descendente, em meio a leve neblina: “- Bogeys às 11 horas!”.

OS P-38 alijaram os tanques de combustível auxiliares e ganharam altitude para interceptar os alvos.

Os Zeros mergulharam para enfrentarem os atacantes, enquanto os dois Bettys separavam-se.

O Capitão Lanphier e o Tenente Barber investiram contra os Bettys. Um deles, após sofrer vários impactos, perdeu altura e colidiu contra o solo, na selva que cobria a ilha.

O outro Betty mergulhou no mar.

No primeiro Betty estava o Almirante Yamamoto. No segundo, o Chefe do Estado-Maior da Marinha Imperial, Vice-Almirante Matome Ugaki, e outros integrantes da comitiva.

Na refrega, o P-38 do Tenente Raymond K. Hine desapareceu, tendo sido dado como caído no mar. Foi a única baixa da força atacante na operação.

Do Betty que caiu no mar, o Vice-Almirante Ugaki e dois outros ocupantes sobreviveram à queda e foram resgatados por forças japonesas da ilha.

Pilotos do 339°Esquadrão de Caça da USAAF

O destino de Yamamoto

O Betty que caíra na selva de Bougainville não deixou sobreviventes. No dia seguinte, uma patrulha de resgate chegou ao local da queda  e encontrou o corpo do Almirante Yamamoto, ainda preso ao assento, que fora atirado para fora da aeronave. Sua mão empunhava o cabo da katana cerimonial. Um médico da Marinha japonesa examinou o corpo do almirante e constatou dois ferimentos à bala, um deles nas costas, à altura do ombro esquerdo, e outro na mandíbula, do lado esquerdo, que saiu acima do olho direito, o qual deve ter causado a sua morte.

Uma longa controvérsia surgiu sobre quem teria sido o autor dos disparos que derrubaram o avião em que estava o Almirante Yamamoto. Lanphier e Barber reivindicaram até o fim das suas vidas a autoria do feito.

Fato é que a Operação Vingança foi bem-sucedida e entrou para a história como a mais longa missão de interceptação aérea da II Guerra Mundial.

Yamamoto pagou, afinal, o preço por Pearl Harbor.

Funeral do Almirante Yamamoto – 5 de junho de 1943

Saiba mais em:

WE KILLED YAMAMOTO: The Long-Range P-38 Assassination of the Man Behind Pearl Harbor, Bougainville 1943. (LINK)

SI SHEPPARD

Osprey Publishing

Londres – 2020

We Killed Yamamoto

Deixe um comentário

6 + 16 =